O encontro com o então presidente norte-americano se deu na Casa Branca em 17 de novembro de 1907. Na agenda de Theodore Roosevelt, atualmente sob a guarda da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, pode-se ler o registro: às 14h30 daquele sábado, em Washington, estava prevista a apresentação, pelo então embaixador brasileiro, Joaquim Nabuco, do “Dr. Oswaldo Gonçalves Cruz, chefe do Departamento de Saúde Pública do Brasil”.
Os bastidores da viagem do médico brasileiro – que ilustra seu papel ativo nas questões sanitárias no âmbito das relações internacionais brasileiras, em especial no continente americano – estão registrados em uma série de cartas entre Oswaldo Cruz e Nabuco. O sanitarista também confidencia suas impressões, durante a visita, em correspondência à mulher, Miloca, e ao amigo Egídio Salles Guerra.
A pedido do governo brasileiro, o titular da Diretoria Geral de Saúde Pública do Brasil fora comunicar ao mandatário dos Estados Unidos que o Rio de Janeiro estava por fim livre da febre amarela e, portanto, seguro para que os navios do país norte-americano lá pudessem atracar. O encontro com o mandatário foi obtido graças ao prestígio do embaixador brasileiro em Washington e ao renome de que já gozava Oswaldo Cruz por conta de seu feito.
“Ontem, ele [Nabuco] pediu ao Presidente Roosevelt uma audiência especial para me receber. O Roosevelt disse-me coisas muito agradáveis”, relatou Oswaldo à mulher em carta escrita no mesmo dia do encontro. Na mesma correspondência, ele conta que fora recebido para um jantar pelo casal Nabuco e expressa preocupação com sua preparação para representar o Brasil na 3ª Convenção Sanitária Internacional das Repúblicas Americanas, no México, para onde rumaria a seguir para falar sobre o sucesso do combate à febre amarela no Rio.
O compromisso em terras mexicanas representou mais um capítulo da longa tradição de participação brasileira nesses encontros internacionais. A partir de 1851, com a realização da primeira Conferência Sanitária Internacional em Paris, esses fóruns passaram a reunir as nações para discutir medidas de quarentena, que tinham impacto sobre a navegação, afetando negativamente o comércio internacional e os fluxos migratórios.
Em 1904, Oswaldo Cruz já atuara como delegado brasileiro na Convenção Platina do Rio de Janeiro. O encontro, que reuniu também representantes de Argentina, Paraguai e Uruguai, buscava “salvaguardar a saúde pública, sem trazer inúteis obstáculos às transações comerciais e ao trânsito dos viajantes”. À luz do já conhecido papel dos vetores na transmissão das doenças – entre os quais o mosquito, no caso da febre amarela –, essa convenção foi importante na medida em possibilitou a abolição das quarentenas, que tanto prejuízo trazia ao comércio na região.
Nesse contexto, no centro das disputas entre as nações estavam controvérsias científicas quanto à aplicação dos preceitos da higiene e da microbiologia. Proteger as cidades contra as epidemias, no entanto, não a única finalidade das medidas sanitárias adotadas pelas nações, que com frequência lançavam mão das quarentenas num ímpeto protecionista ou em retaliação política. Entre os séculos 19 e 20, eram conhecidas as contendas entre Brasil e Argentina, que empreendia campanhas difamatórias contra os portos do país vizinho, a fim de atrair para Buenos Aires as levas de imigrantes que tinham como destino a América do Sul.
Ao México, em 1908, Oswaldo Cruz foi com a missão de trazer a convenção seguinte para o Rio de Janeiro “para seguir rotação Conferências Pan-Americanas e como homenagem [aos] imensos trabalhos [de] regeneração sanitária [do] Brasil”. O desenrolar das negociações no México, porém, não foram favoráveis à candidatura da então capital brasileira. Conforme relata a Nabuco, Oswaldo Cruz diz ter-se visto compelido a endossar o movimento de repúblicas centro-americanas em favor da candidatura da Costa Rica.
Com a justificativa de que sediar uma convenção poderia contribuir para sedimentar boas práticas sanitárias em nações mais atrasadas nesse quesito, a Costa Rica acabou sendo escolhida. Em cartas, porém, Joaquim Nabuco deixa implícito um certo descontentamento com o resultado.
