Em 1909, Carlos Chagas, cientista do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), identificou, um parasito transmitido por um inseto hematófago, popularmente denominado barbeiro. Por meio de suas investigações, comprovou que o parasito, nomeado Trypanosoma cruzi (T.Cruzi), era responsável por provocar uma doença infecciosa em seres humanos e animais. Ela foi denominada de tripanossomíase americana, e passou ser reconhecida como doença de Chagas em homenagem ao pesquisador.
O ciclo completo da doença foi descrito durante 1908 e 1909, quando o cientista se dedicou à realização de pesquisas de laboratório e de campo, em Lassance, município localizado ao norte do Estado de Minas Gerais, onde se encontrava desde 1907 para combater uma epidemia de malária.
As experiências de laboratório também foram realizadas no IOC no Rio de Janeiro, porque o laboratório de Chagas em Lassance apresentava limitações técnicas. Parte das pesquisas foi realizada no IOC sob a condução do diretor Oswaldo Cruz, quer recrutou outros pesquisadores para participar, como Gaspar Vianna e Artur Neiva.
No IOC foi detectado um aspecto decisivo para a descoberta da doença. Cruz colocou barbeiros coletados em Lassance para picar macacos criados em laboratório. Dias depois os animais adoeceram, e ele observou a presença de protozoários em seu sangue. Carlos Chagas retornou ao Instituto, e concluiu tratar-se de uma nova espécie de tripanossoma. Em homenagem ao diretor do IOC ele o denominou de Trypanosoma cruzi.
Chagas retornou a Lassance para identificar o protozoário em humanos e animais. Ao realizar exames de sangue nos habitantes locais, no dia 14 de abril de 1909 encontrou o T. cruzi no sangue de uma criança de dois anos, Berenice, reconhecida como o primeiro caso humano registrado da doença.
De 1908 até outubro de 1910 Oswaldo Cruz se comunicou com Carlos Chagas e Belisário Pena. Em seu Arquivo Pessoal encontramos registros dessa correspondência: treze cópias de telegramas manuscritos, nem todos com datas, contém informações a respeito das experiências que ocorriam em Lassance e no IOC.
A análise dos documentos mostra que representam uma fração da correspondência trocada. Mesmo sem o conjunto completo observa-se que Cruz se envolveu no processo de investigação com entusiasmo. Observa-se também as articulações políticas junto à comunidade médico-cientifica para obter o reconhecimento e o crédito científicos para Carlos Chagas e para o IOC
Os documentos selecionados foram classificados em dois grupos: o primeiro abrange o período 1908-1909, e trata da troca de informação sobre as investigações em Lassance e no IOC. O segundo é formado por um conjunto sem data, embora os temas abordados refiram-se a fatos históricos correspondentes ao período compreendido entre o anúncio da descoberta em 14 abril de 1909 e 26 de outubro de 1910. Nessa última data Chagas foi admitido como membro da Academia Nacional de Medicina.
